Saturday, April 07, 2007

Gosto de Ir à Igreja

Para uns a fé é centro, é luzeiro, é astro vivo
Para outros a fé é vício
Ainda para outros o vício é fé

Gosto de ir à Igreja, de me sentar ou mesmo estar de pé
De ouvir Missa ao Domingo, ou até ao Sábado

Gosto de ir à Igreja como aprecio ver o Sol nascer
Ou mesmo um Sol-pôr, a Lua, o mar, as estrelas
Ou, meramente, como aprecio sentar-me em qualquer lugar público
Quer seja num café, praça ou parque
Como Fernando Pessoa
Para aí viver, saborear
A magia do momento

Assim como alguém que se senta a uma mesa e é servido
Ali vai para redigir poesia

Sim, gosto de ir à Igreja
Na Igreja estar calado, não dizer uma palavra
Escutar as ladainhas, os Padres-nossos ao meu lado

Flutuar num mar de símbolos, de rostos compenetrados
Imerso em preces
Deixar-me intoxicar pelo sentido do divino e puro
Como se por um Tinto dos mais finos

Como num grande café na capital
Sentir-me rodeado de gente que acredita com fé
No café que ingere
Nas palavras que dizem;
Dali saem satisfeitos consigo mesmo
Cheios por algo maior do que eles
Completos, aquecidos
Irmãos da totalidade
Pela totalidade comprometidos

Assim, na minha poesia ouso dizer
Que quando vou à missa vou para a minha “taverna”
A minha tasca mística
Lá gosto de estar porque ali algo vibra
A si me atrai

…De lá sair aquecido
Como pelo brilho do Sol e das estrelas
Intoxicado pela palavra, o sacrifício
Eucarístico
Sentir-me coroado de um fogo vivo
Que a si me liga, me dá vida




Gosto de ir à Igreja como gosto de poemas ler e os escrever
Com rima ou sem rima, só por mero prazer
Acreditando que esse Cristo é Deus
Que ele é o meu Rei
Sacia-me a fome,
Mata-me a sede
É a minha salvação

Silvério Gabriel de Melo


Aqui os Açores com o Domingo de Páscoa começam as festas do Espírito Santo. Povoados no princípio da Idade dos Descobrimentos estas eram as paragens do fim do mundo. Ainda que o Príncipe Henrique e muitos marinheiros com ele associados, acreditassem com grande fé que a Terra poderia muito bem não ser plana, mas sim, redonda, a fé dos nossos antepassados aqui radicados era a que estávamos no extremo da terra plana, que um pouco mais além e seríamos engolidos por gigantes Adamastores, pelo próprio abismo de onde vinham as fragas a arder, as lavas do interior destas ilhas.

O culto do Espírito Santo de certo ajudou na transição de uma concepção de um mundo de superfície plana para aquele de um mundo esférico, redondo. Aos poucos, a coragem que se ia buscar ao culto do Espírito Santo, fez com que os nossos antepassados fossem mais além, aos poucos perdessem o medo de tombarem no abismo que ficou comprovado, não existia.

Até Portugal tornou-se o país que se tornou, graças a esse impulso do Príncipe Henrique e a sua grande fé. Sem a Igreja Portugal nunca teria passado de um simples jardim à beira do mar plantado, uma extensão da Galiza, uma província da Espanha, sem consistência alguma, assim como agora, quando sem um plano e um objectivo comum não passa de um estado sem importância que todos segue e todos tenta convencer da sua importância.

O nosso país enfim entrou em decadência no momento em que a própria Igreja começou a seguir os seus próprios desígnios de ganância e poder; quando no espaço de Portugal passaram a existir dois estados, o do Rei e o da Igreja. Como se não podem servir a dois mestres, e esses dois apostados no se enriquecer à força e à custa da injustiça, Portugal passou à história. Seguiu-se a Inquisição, abusos de toda a ordem. Da Fé passou-se à contrafé e assim deu-se lugar à escravatura, à exploração, ao rápido empobrecimento de Portugal e dos Portugueses e a maior pobreza ainda a pobreza de espírito.

Cristo, aquele cujo dinamismo, o carisma foi capaz de construir uma realidade que fez expandir o mundo, era inteligência, ciência pura. Basta dizer que ele seria aquele que, ao contrário, do que eu faço, iria sentar-se em qualquer taverna ou tasca a falar e confraternizar com qualquer homem que eu possa considerar um estafermo, bêbado, ou labrego. Sem medo ou pudor algum iria abraçar a mulher da rua, qualquer Madalena ou Madaleno impuro. A todos, aos leprosos, cegos, surdos, mortos daria a sua luz e calor humano e depois disso tudo entregar-se-ia sem grandes debates sobre a sua inocência, à morte mais macabra, para em si provar tudo e tudo ser provado. Não escreveu livro nenhum, nem pediu que o fizessem. Ele sabia que a sua palavra, o seu acto da cruz bastava; bastava o saberem que ele era a luz do mundo e o seguirem, mais nada.


Silvério Gabirel de Melo

Saturday, December 23, 2006

"Mãe, porque somos diferentes?" perguntou um dia um golfinho à sua mãe que o seguia com ternura pelos corredores do oceano.

"Filho, nós somos mamíferos, sabes? Respiramos o oxigénio do ar, não da água, assim como os homens e...""Como as garças?" Interrompeu o golfinho."Sim, também, mas.

"Distraído em seguir um cardume de peixes, o golfinho já não prestou a atenção à explicação. Não se importava.

Eram lindas as águas. Passavam como rosários com contas de cristal. Como sabia brincar entre elas, deslizar, correr, subir, descer, trepar entre cortinas de luz vindas do alto. Não havia melhor que isso. A terra era seca e ardia na pele. O mar sim, era maravilhoso.

Assim pensando, desviou-se o golfinho de onde a sua mãe havia parado para descansar. Nadou para cima e para baixo em guinadas divertidas como se estivesse numa montanha russa ou carrossel. De súbito parou. Silencioso e ilustre, deparou com um tubarão – o príncipe dos mares, atravessando a extensão iluminada pelo sol do meio-dia. Que belo! Sim, gostaria de ser como ele; assim senhor de si, nobre, elegante, fino, distinto, perfeito, respeitado por todos os peixes. O golfinho parou para apreciar esse membro da raça fina e senhor dos mares.

Seguiu-o. Como o invejava. Tinha uns movimentos seguros e cativantes. Ao seu passar, todos os peixes se desviavam com respeito, como se ele fosse um Deus, um peixe de ouro. Como gostaria de trocar com ele de lugar e ser também um tubarão – — ser invejado por todos, ser rico, belo, chamar a atenção, conseguir tudo que quisesse, encantar todos os peixes do mar com a sua beleza.

Quando o tubarão subiu à tona, subiu ele também. Para lhe chamar a atenção, deu umas cambalhotas e até uns saltos fora da água. Que bom seria tornar-se seu amigo, ser seu igual, pertencer à mesma raça e mesma classe.

Nos seus saltos, então, deparou com uma traineira não muito longe de onde estavam. Lá estavam as criaturas de que sua mãe tanto falava, cobertos de algas coloridas sobre o rosto e fazendo sons como o vento sobre a água ou como o mar na praia.

De súbito, algo acontecia. De longe viu um dos seres debater-se nas ondas e apercebeu-se da sua angústia e aflição. Viu também, como da traineira um outro ser humano se atirava à água. Ao mesmo tempo viu surgir do fundo aquele que era o seu ídolo. Viu como ele se havia transfigurado, transformado numa fera hedionda, uma besta de dentes arreganhados, cego, furioso, mau – um demónio. Ele podia ouvir o rugir bestial e pavoroso. Como movido a eléctrico, chapinhava a superfície com uma raiva louca, espalhando terror à sua volta. Como é que um ser tão belo, podia esconder tal ferocidade, produzir tal terror?

O golfinho viu como os homens lutavam com todo o esforço e como um deles, uma criança ainda, desfalecia e sangrava. Ele viu toda a bestialidade daquele que ele havia julgado tão puro, tão nobre, e ficou cheio de revolta. Não havia nada nobre agora naquele peixe cruel, quase satânico, feito um monstro horrível de se olhar.

De um momento para o outro, sem saber como, o golfinho viu-se deslizar na água com uma força estranha, que ele próprio desconhecia nos seus tenros anos. Primeiro desceu para tomar força e depois vertiginosamente subiu, vindo a embater contra o tubarão num ímpeto fenomenal. Atordoado, o príncipe dos mares, cobarde e apressadamente se desviou do lugar. O golfinho ainda o seguiu e o atacou mais duas vezes. Depois já mais calmo, deixou descer ao abismo esse peixe formoso, mas mau. Deixou-o silenciosamente ondular no silêncio terrível e na dignidade assassina, assim desaparecer de vista e do seu coração.

Voltando à tona, o golfinho a seguir, percebeu que os homens também estavam alegres. Viu um deles abanar os seus membros e lhe atirar alguns peixes com carinho. Tinham trazido para bordo a criança e estavam à sua roda. O perigo já tinha passado.

"Que era isso?" Sentia-se tão bem entre esses seres. Eles, sim, pareciam ter o Sol dentro de si quando sorriam. Um dos que tinha estado na água até o acarinhou. Davam-lhe alegria e amor! Sim, gostaria de ser como esses pescadores um dia.

Por uns instantes os seguiu cambalhotando e saltando cheio de alegria e emoção. Ah... se pudesse viver com eles! Mas depois lembrou-se da mãe. Tinha que lhe contar esta aventura de terror e de glória, e lá voltou aos bancos onde ela esperava ansiosa. Amanhã haveria de procurar o mundo dos homens e haveria de ficar com eles, haveria, Amanhã...

Silvério Gabriel de Melo -

Saturday, November 11, 2006

Sobre Deus e o Demonio

Somos de Deus como a pele é para um corpo
O que sentimos, Deus o sente em sua pele
Se o não sentimos, se o temos como um corpo morto
Como pode alguém dizer “Eu sou,” sem a Vida Desse?

Se Ele não existe, para que existimos nós então?
Se Ele não é, para que é que tudo é o que é afinal?
Há que haver para tudo que é ou se diz ser uma razão
Essa razão por razão de ser é a Razão Principal

Eu sou porque há essa Razão que me faz raciocinar
Se raciocino é porque essa Razão assim o determina
O meu raciocíno é simples fruto desse Pensar
Dessa Razão que tudo cria, Razão divina

Oh Deus, eu creio, espero e amo; convicto estou
Que em eu sendo, há que haver Esse “Eu Sou Quem Sou.”

Aqui na Terceira é comum vermos a andar a pé, calças escuras, camisas brancas com gravata, quase sempre dois a dois, os jovens missionários da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Vão de rua em rua, de canada em canada propagar a Fé. Têm atitudes reverentes e delicadas para com todos. Vemo-los quer faça chuva, quer faça vento; sua, uma tenacidade louvável. Quando os vemos pensamos, tivesse a Igreja Católica o mesmo ímpeto, a mesma febre e não estaria em tão maus lençóis como está.

É que aqui nos Açores como é sabido, as contas da Igreja não vão nada bem. O bispo carpe-se de que se os fiéis não meterem a mão na algibeira para dar, que essa irá cair na falência. Quanto ao Cristianismo, apesar de século a seguir de século de evangelização, somos uma ilha de um Catolicismo entorpecido, passado à história. Por aqui há sim muitos Católicos, muita festa do Espirito Santo, mas um Cristianismo de Faz-de-Conta onde há mais Cristãos que se envergonham de serem Cristãos, que fácilmente fazem o que Pedro fez quando negou Cristo, do que Cristãos verdadeiros. Enfim, como costumo a dizer, uma terra de muitos Católicos, sim senhor, mas de muitos poucos Cristãos de facto.

A pedra sobre a qual a Igreja açoriana /portuguesa assentou, confirma-se, não passou de pedra de cal; que temporáriamente fez lavagem aos célebros, nos pintou todos Católicos, mas rápidamente em vindo a chuva nos deixou no profano, no Cristãos de meia tigela. Como os íconos no meu velho computador, que em se premindo ocasionalmente a nada levam, não funcionam como deviam, apontam para um sistema em vias de colapso. Sendo eu Católico, sinto pena deste estado de coisas. Aos moços da Igreja dos Últimos Dias que me visitaram em casa afirmo-lhes que acho a sua postura missionária louvável; que eles estão a fazer o que os nossos antepassados fizeram na India, Brazil, Macau e África, mas como a uma Mãe, aprendi a honrar essa Igreja Católica e de maneira nenhuma me proponho afastar dela, apesar de todas as faltas que possa ter. Rindo e conversando faço-lhes saber que eu não estou disposto ainda a um transplante de coração; que o meu coração bate nessa igreja Católica e que nada me convence a mudar de coração.

Como para um doente de doença vascular, o importante é que o coração continue a bater e que o sangue continue a correr nas veias e artérias. Para tal exige-se um novo regime, novos hábitos e práticas que tornem possível a saúde desse sistema. Reconhecer a doença já é meio caminho andado para a recuperação. Portanto, apesar de combalida, essa nossa Igreja vive em cada um de nós. Cabe a cada um de nós, pelo nosso próprio bem, o dever de a erguer e a fazer ir em frente; isso de uma forma corajosa, sem hesitações ou dúvidas. Há que acusar, que bater no peito, acordar a esperança e a fé, fazer a fogueira arder denovo; fazê-la pulsar com o mesmo vigor de antes.

Ao mesmo tempo, dada a sociedade de hoje, é confortável admitirmos que bem haja a função daquelas Igrejas que impulsionadas pela Fé conseguem ainda conquistar crentes e trazer Cristo até aos corações mais disponíveis para isso. É que temos que admitir, a verdadeira Igreja não é realmente esta ou aquela denominação, mas o próprio Cristo. Para a sociedade de consumo, indiferência; falha de sentido fraternal, de amizade humana, de integridade e de carácter, qualquer igreja que tenha Cristo como centro é Igreja; é vaso da verdade, da realidade e vida; é o Caminho. Portanto, qualquer Igreja que o escolha como guia, como vasos vasculares que se fracturam, subdividem em artérias, veias e capilares, a sua função é de proporcionar a livre circulação da Mensagem; trazer o corpo e sangue de Cristo até cada pessoa humana-- isso o elementar. Se a Mensagem está de alguma forma a não ser transmitida pela Igreja Católica, qualquer que seja a razão, bem haja a vontade e dedicação dessas outras denominações que se entregam a Cristo e com um entusiasmo radical propagam a Fé e a doutrina de Cristo. Afinal o próprio Crsito foi quem muito claramente afirmou, “Onde houver dois ou mais reunidos em meu nome, eu lá estarei.”

Como um certo cientista feito teólogo por nome Dean H. Hamer, tendo a acreditar que toda a pessoa humana é atraída a Deus por uma razão muito profunda, que tem mesmo a ver com a nossa natureza humana. Segundo esse cientista possuímos um gene que nos predispõe à fome e sede de um Ser superior; um Deus (The God Gene). Isso é, a nossa natureza humana quer queiramos, quer não, liga-nos à realidade de Deus de uma tal forma, que essa carência faz parte integrante da nossa natureza; assim como faz parte integrante da nossa natureza o andarmos erectos da forma como andamos; o falarmos; chorarmos e rirmos; de sermos como nenhuma outra criatura sobre este planeta. Como seres humanos somos uma criação realmente imbuída na própria natureza de Deus. Mais cedo ou mais tarde buscamo-lo, pressentimo-lo, como a nós mesmos. Assim já como Adão e Eva no Paraíso, por mais que tentassem dele fugir, o pressentiam, sentiam por todo o lado, a idéia de Deus, a nossa relação com um Espirito Pai é tão dominante em nós como é o comer, beber ou fazer sexo.

Tempo houve, em que fresco da Universidade, aluno de filosofias germânicas me tinha convencido que a noção de Deus dependia da noção do “eu”, da minha realidade. Enfatuado nessa doutrina, inspirado por Nietzsche, Goethe, Quental e outros, percebia Deus como um ser que nós pessoas humanas houvessemos criado com a nossa inteligência; que podíamos fazer de Deus quem quisessemos. Isso é, a existência de Deus dependia da nossa existência, uma doutrina denominada como apsolutismo (Ver Facta Universitatis, Stanoucic, Serbia) a que tinha convergido imperceptívelmente.

Donos da faculdade de pensar, julgava, a nossa existência e inteligência predispõe a existência ou nãode Deus e do Demónio. Em outras palavras, em eu não vivendo, não existiria Deus, pois Deus necessitava da minha existência para o meu assumi-lo com tal---o mesmo que dizer que para electricidade tem que haver primeiro o interruptor e que cabe ao interruptor a existência de uma corrente de electricidade ou não; ou como para uma corrente de água tem que haver uma torneira e se fechada, ali pára essa corrente.

Até eu compreender a minha confusão foi necessário uma experiência única que me tocou até à alma. Lembro-me que quando o meu Pai, doente fora internado no hospital, no mesmo quarto dele colocaram um homem que se dizia sofrer de um acidente vascular. No primeiro dia que ali entrou, vinham doutores de todo o lado para o examinar. Achámos algo invulgar toda aquela azáfama, mesmo pela noite dentro. “O que é que o homem tinha?” perguntavamo-nos. Nos dias seguintes, o tal paciente pareceu melhorar de saúde. Com ele vinha ter uma religiosa que muito orava e pregava—coisa de New Age, pensamos. Era tanta a religiosidade à sua roda que nos impressionou. As enfermeiras, essas é que tinham uma atitude muito estranha. Carrancudas, frias e algo rudes entravam e saíam ligeiras, poucas palavras dando ao doente. Foi a tal ponto que a minha Mãe achou-as indelicadas e compadeceu-se por ele. Não falando Inglês, pediu que eu falasse com o homem, que o fizesse sentir à vontade, que lhe dessemos nós um pouco de caridade. Parecia que ninguém queria falar com ele.

O certo é que nas nossas visitas passei a dialogar com o tal homem. A certa altura passamos a falar de Deus. Convicto que Deus é só Um, que só existe um Deus todo poderoso, afirmei que não podia conceber um Deus e um diabo, como seu antagonista. Deus era Deus e não havia diabo; que aliás tanto um como o outro eram figmentos da mente humana; que nós, seres humanos, os criávamos à nossa própria imagem e semelhança; que era a nossa inteligência humana que escolhía o Deus que mais nos apetecia; que como Cristãos havíamos aprendido a fixarmo-nos num Deus bom e benevolento, de tradição Judaica, mas que tudo realmente dependia da “fixação,” da nossa fé, que até poderíamos fazer do diabo o nosso Deus e conseguir dele os milagres que quisessemos logo que na nossa energia religiosa nos dispusessemos a isso. Foi nessa altura que bem me lembro do sorriso do tal paciente; era um sorriso cheio de gozo, divertido.

Uma enfermeira que por ali passava, atraída pela nossa discussão, veementemente discordou com o facto de eu não acreditar no demónio; que esse existia e que era uma espirito do mal. Por mais que eu tentasse explicar que estavamos a falar de uma energia criadora, que para haver Deus e Demónio, então que esse último teria que estar na natureza de Deus, que Deus sendo único compreendia em si a natureza do demónio e que nós homens até poderíamos, se assim o designássemos fazer dessa energia o nosso Deus. Enquanto a enfermeira e eu argumentávamos sobre a natureza de Deus e do demónio, a nossa existência e existência de tudo e nada, o paciente sorria, pouco contribuía para a nossa discussão. Assim, eu teimava que não podia aceitar a existência de um Satão como se igual ou sombra fizesse a Deus. A enfermeira, em si, teimava que sim havia o poder de um demónio, que a Bíblia assim o indicava e que ele era sim real.

Essa enfermeira mais tarde, abriu-se connosco num à parte e fez-nos compreender que o tal homem ali internado era o chefe de um culto satânico e que estava debaixo de uma investigação devido ao assassínio de duas raparigas na cidade de Fall River, isso em missas negras que conduzia. Toda a religiosidade que se fazia rodear, não passava de artimanha; assim como artimanha era a sua doença; convidenciou-nos que o tal homem dez anos antes já tinha fingido esse mesmo enfarte ou acidente vascular, isso para fugir à suspeita de outros assassínios na zona de Fall River, esses também ligados a um culto satânico que ele liderava. Como não havia ainda bastante evidência para o incriminbar, tinham-no colocado ali, mas logo que houvesse a evidência suficiente que ele iria ser colocado num quarto à parte.

De facto, naquele Verão, o Verão de 1980, o tal sujeito foi colocado com polícia à porta dentro do hospital. Tinham encontrado evidência da sua culpabilidade bastante para o incriminar. Mais tarde seguiu-se um processo muito mediático de meses, no fim do qual ele foi acusado dos tais crimes e encarcerado para o resto da vida.

Lembro-me de uma vez, ele olhar para as feridas do meu Pai e alegar que essas eram devidas ao efeito do demónio; que o demónio permitia tal sofrimento. Só sei que esse contacto foi uma linguagem viva para eu melhor pensar sobre a natureza de Deus r curar-me do meu “apsolutismo.”

De uma forma ou outra Deus falava-me através desse contacto, fazia-me reavaliar a minha noção sobre a sua natureza. Aprendi que não, o sofrimento do meu Pai era o sofrimento de Cristo; que vivemos num mundo por mais que perfeito, eternamente imperfeito e sujeito às leis da matéria, que a natureza de Deus nos escapa na sua totalidade; que Deus é Deus independentemente da nossa faculdade mental; assim como a electricidade é electricidade independentemente dos interruptores e ou transformadores; assim como uma corrente de água controlada por uma torneira em nada tem a ver com a natureza dessa água; que ela existe independentemente de qualquer vaso que a conduza. Foi nesse ano e nessa altura que compreendi a fundo a realidade de Deus.

Hoje deixo que Jesus Cristo seja o meu interruptor, a instalação ou cano a que pertenço e a ele peço que deixe chegar até mim a energia vital do Espirito Santo, a água e o fogo de Deus. Compreendo que o demónio, a força do mal é um simples curto circuito do sistema ou fuga de água em qualquer canalização velha; que a sua natureza como a nossa, não comporta na realidade toda a realidade e essência de Deus. Compreendo muito melhor a natureza de Deus e reconheço que querer defini-lo é o mesmo que querermos controlar a força de um tsunami, um tufão ou um vulcão na dimensão de um oceano tão vasto como o Universo ou o mesmo que querer colocar um bosque inteiro dentro de uma semente, ou como ainda o clássico exemplo de se querer pôr o mar dentro de uma pocinha.

Através desse contacto, aprendi que é Deus que nos concede a Fé, que nós não controlamos a Fé; que é Deus que nos define, não cabe a nós defini-lo; que é Deus que nos cria e nos humaniza, não nós que o humanizamos ou o criamos à nossa imagem e semelhança.

Esse incidente de 1980 ensinou-me, pois, a verdade; fez-me compreender que cada um de nós como as estrelas no vasto espaço, fomos criados para sermos luzeiros; que é através de nós que a energia do Deus Todo-Poderoso se faz em luz e em fruto, que nós não passamos de presenças transformadoras, transistoras-- de condutores dessa energia, que em nós se inflama como os filamentos de tungsténio ou volfrâmio dentro das lâmpadas incandescentes.

Assim raciocinando sei o porquê da desumanidade do aborto, suicídio e eutanásia; assim como compreendo que no espaço, a morte de um astro pessupõe a escuridão completa.

Reconheço que só os Cristãos de meia tigela, os pseudo intelectuais, os acelerados da nossa sociedade de prazer e consumo, os falso cientistas e doutores, é que podem alguma vez alinhar com a morte por escolha, quer no principio, quer no fim de uma vida humana; pois ser quem somos é ser os olhos, os sentidos de Deus nesta realidade. Matar quem quer que seja por aborto ou eutanásia, é matar Deus; é interrompermos a sua presença entre nós. Há que sermos desde o principio ao fim quem somos e para o que fomos criados. Deixemo-nos de brincar ao sermos Deus por conta e desígnio próprio, pois já Nietzsche, feito interruptor, na vanglória da sua sabedoria, bravo e farçola deu Deus por morto, mas também é certo que morreu permitem-me a criação de um novo termo, “dis-espiritualizado,” demente, louco; louco também o nosso próprio Antero de Quental, loucos os que alguma vez se entretêm a querer definir Deus ou brincarem com Deus como quem brinca com uma velinha.

O mal e o demónio não passam de curtos circuitos, a energia de Deus mal empregada, distorcida, estragada. Para mim o Inferno é isso, a “dis-espiritualização,” a falta dessa energia nas nossas vidas e o Céu é o voltarmos ao eléctrodo Pai da nossa existência. Também como Paulo o já fazia, no fim, já não somos nós que até pensamos ou snentimos, é o próprio Cristo em nós que fala; é o verdadeiro Espirito e nós somos meros altares da sua presença em nós.

Silvério Gabriel de Melo